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Alcoólicos Anónimos Grupo 1 de Maio


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Livro Azul Capítulo 1

A HISTÓRIA DE BILL

Crescia a atmosfera febril de guerra na cidade de Nova Inglaterra, para onde nós, jovens oficiais de Plattsburg, fôramos destacados. Sentimo-nos lisonjeados quando os cidadãos mais importantes nos convidaram para suas casas, tratando-nos como heróis. Havia demonstrações de afecto e aplausos naquela hora de guerra: momentos sublimes com intervalos de hilariedade. Sentia-me finalmente a fazer parte da vida e no meio desta excitação descobri o álcool. Esqueci-me das sérias advertências e dos preconceitos da minha família em relação à bebida. Chegou a altura em que embarcámos para a Europa; senti-me então muito só e voltei-me de novo para o álcool.
Desembarcámos em Inglaterra. Visitei a Catedral de Winchester. Muito comovido, saí e pus-me a passear. Uma inscrição, em verso de pé quebrado, na lápide de uma velha campa, chamou a minha atenção:
"Aqui jaz um granadeiro de Hampshire
que encontrou a morte
a beber cerveja fria.
Um bom soldado nunca é esquecido
morra ele pelo mosquete
ou pela caneca."
Sinistro aviso de que não fiz caso.
Com vinte e dois anos e veterano de guerra no estrangeiro, regressei por fim a casa. Via-me como um líder. Por alguma razão os homens da minha unidade tinham-me dado uma prova especial de estima. Com este meu talento para liderar, imaginava eu, chegaria ao topo de múltiplas empresas que eu dirigiria com a mais completa segurança.
Tirei um curso nocturno de Direito e arranjei emprego como investigador numa companhia de seguros. A corrida para o êxito tinha começado. Eu ia provar ao mundo como era importante. O meu trabalho levou-me a Wall Street e a pouco e pouco comecei a interessar-me pelo mercado financeiro. Muitas pessoas perdiam dinheiro, mas outras faziam fortuna. E porque não eu? Estudei Economia, Comércio e Direito. Alcoólico em potência, quase chumbei no curso de Direito. Num dos exames finais estava tão bêbedo que não conseguia pensar nem escrever. Apesar de ainda não beber continuamente, a minha mulher já se mostrava apreensiva. Tínhamos longas conversas em que tentava acalmar os seus presságios, argumentando que os homens de génio concebiam os seus melhores projectos quando bêbedos e que o álcool também tinha inspirado os mais sublimes sistemas filosóficos.
Quando acabei o curso, compreendi que Direito não era profissão para mim. O fascinante turbilhão de Wall Street já me tinha apanhado. Os meus heróis eram os grandes homens de negócios e finanças. Desta combinação de álcool e especulações, comecei a forjar uma arma que mais tarde se voltaria no seu voo contra mim como um boomerang e me faria em bocados. Vivendo modestamente, a minha mulher e eu economizámos $1000 que investimos numas obrigações então baratas e de pouca procura. Pensei acertadamente que um dia teriam uma alta cotação. Como não consegui convencer os meus amigos corretores da bolsa a encarregarem-me de fazer visitas a fábricas e respectivas administrações, a minha mulher e eu decidimos ir de qualquer maneira por conta própria. Defendia a teoria de que a maior parte das pessoas perdiam dinheiro na Bolsa por falta de conhecimento dos mercados. Mais tarde descobri ainda muitas outras razões.
Deixámos os nossos empregos e partimos em motocicleta, com o sidecar atulhado com a tenda de campanha, cobertores, uma muda de roupa e três enormes volumes de consulta para assuntos financeiros. Os nossos amigos pensaram que se devia nomear uma comissão para averiguar a nossa saúde mental. Talvez tivessem razão. Eu tinha tido um certo êxito com a especulação e por isso tínhamos algum dinheiro, mas chegámos mesmo a trabalhar um mês numa quinta para evitar tocar no nosso pequeno capital. Foi o último trabalho manual honrado que fiz durante muito tempo. Num ano percorremos toda a parte oriental dos Estados Unidos. Ao fim desse ano, com os relatórios que enviei para Wall Street, consegui aí um lugar com direito a despesas de representação. Uma operação de Bolsa com direito de opção trouxe-me lucros de vários milhares de dólares nesse ano.
Durante uns anos a sorte ainda semeou dinheiro e êxitos no meu caminho. Tinha triunfado. O meu critério e ideias eram seguidos e influenciavam mercados onde se transaccionavam milhões de dólares em valores. A grande vaga de prosperidade dos anos vinte estava em plena ebulição e expansão. A bebida já ocupava uma parte importante e animada na minha vida. Falava-se aos gritos nos clubes de jazz de Manhattan. Todos gastavam aos milhares e falavam de milhões. Os sensatos que troçassem e que fossem para o diabo! Arranjei um enorme círculo de amigos de ocasião.
A minha maneira de beber começou então a tomar proporções mais graves, porque bebia durante o dia e quase todas as noites. As advertências dos meus amigos acabavam em discussões e tornei-me um solitário. Houve muitas cenas tristes no nosso sumptuoso apartamento. Não cometi propriamente infidelidades, porque para além da lealdade à minha mulher, as enormes bebedeiras evitavam-me semelhantes complicações.
Em 1929 apanhei a febre do golf. Partimos imediatamente para o campo, a minha mulher para me aplaudir e eu para superar Walter Hagen. Porém, o álcool apanhou-me antes que eu pudesse vencer Walter Hagen. Comecei a ter tremores de manhã. O golf permitia-me beber de dia e de noite. Era divertido bater a bola pelo luxuoso campo de golf que tanto me tinha impressionado em rapaz. Arranjei um bronzeado impecável que se vê nas pessoas bem instaladas na vida. O banqueiro local observava com um cepticismo divertido o movimento de cheques avultados.
Bruscamente, em Outubro de 1929, desencadeou-se o inferno na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Depois de um desses dias infernais, cambaleei de um bar de hotel para um escritório de corretagem. Eram oito horas, cinco horas depois do fecho do mercado. O indicador de cotações ainda ecoava. Tinha os olhos postos num ponto da fita com a inscrição XYZ-32. De manhã tinha marcado 52. Estava arruinado assim como muitos dos meus amigos. Os jornais noticiavam pessoas a saltarem para a morte, deitando-se das torres da Alta Finança abaixo. Isso repugnava-me. Eu não iria saltar. Voltei para o bar. Os meus amigos tinham perdido vários milhões desde as dez da manhã. E daí? Amanhã seria outro dia. À medida que ia bebendo, voltava-me a feroz determinação de vencer.
No dia seguinte, telefonei a um amigo de Montreal. Ele ainda tinha muito dinheiro e achou melhor eu ir para o Canadá. Na primavera seguinte já estávamos a levar o estilo de vida a que nos tínhamos habituado. Senti-me como Napoleão no regresso de Elba. Para mim não haveria Santa Helena! Mas o álcool apanhou-me outra vez e o meu generoso amigo teve que me largar. Desta vez estávamos arruinados.
Fomos viver com os pais da minha mulher. Arranjei trabalho e perdi-o logo a seguir por causa de uma briga com um condutor de táxi. Felizmente, ninguém poderia prever que eu não ia ter um emprego a sério durante cinco anos, nem estar sóbrio por um só momento. A minha mulher começou a trabalhar num estabelecimento comercial e chegava a casa exausta para me encontrar bêbedo. Nos círculos da Bolsa consideravam-me um parasita indesejável.
O álcool deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade. A minha dose diária eram duas garrafas de gin de fabrico caseiro, por vezes mesmo três. Em certas ocasiões em que uma pequena operação me rendia umas centenas de dólares, eu pagava as minhas dívidas nos bares e restaurantes. Esta situação prolongou-se indefinidamente e eu comecei a acordar muito cedo de manhã a tremer violentamente. Precisava de um copo cheio de gin seguido de meia dúzia de cervejas para conseguir comer qualquer coisa. Apesar disto, ainda pensava que podia controlar a situação e passava períodos sem beber que renovavam a esperança da minha mulher.
A pouco e pouco as coisas foram de mal a pior. Um credor hipotecário tomou conta da casa, a minha sogra morreu, a minha mulher e o meu sogro adoeceram.
Por esta altura apresentou-se-me a oportunidade de um negócio que prometia. O valor das acções tinham caído em 1932 e eu tinha conseguido interessar um grupo de pessoas na sua compra. A minha participação nos lucros seria vantajosa, mas foi então que apanhei uma tremenda bebedeira e a oportunidade escapou-me.
Acordei. Isto tinha de parar. Percebi que nem sequer podia tomar um copo. Deixaria de beber para sempre. Antes disso, tinha feito inúmeras promessas mas, desta vez, a minha mulher via com alegria que a minha decisão era a sério. E eu estava realmente decidido.
Pouco tempo depois voltei para casa bêbedo. Não tinha feito o menor esforço para o evitar. O que tinha acontecido à minha firme decisão? Francamente não sabia, nem sequer me tinha vindo à cabeça. Alguém tinha posto um copo à minha frente e eu bebi-o. Estaria eu doido? Pus-me a pensar, porque uma tal falta de senso comum parecia revelar isso mesmo.
Renovando a minha resolução, tentei de novo. Passou um certo tempo e a confiança começou a ser substituída pela presunção. Já me podia até rir dos bares! Já tinha o que precisava. Um dia entrei num café para telefonar. Em menos de um segundo, dava murros no balcão do bar, perguntando-me a mim próprio o que tinha acontecido. À medida que o whisky me subia à cabeça, convencia-me a mim mesmo de que na próxima vez teria mais cuidado, mas que já agora valia mais a pena apanhar uma grande bebedeira. E assim foi.
O remorso, o horror e o desespero da manhã seguinte são inesquecíveis. Faltava-me a coragem para lutar. A minha cabeça estava numa confusão e eu tinha um terrível sentimento de calamidade iminente. Quase não me atrevia a atravessar a rua com medo de cair e de ser atropelado por um desses camiões que circulam de madrugada, pois mal rompia o dia. Entrei num estabelecimento aberto dia e noite onde me serviram uma dúzia de cervejas que acalmaram os meus nervos encrespados. Um jornal da manhã anunciava que o mercado de valores tinha de novo ruído. Ora bem, e eu também! O mercado poderia recompor-se, mas eu não. Era uma ideia difícil de aceitar. Deveria suicidar-me? Não, por enquanto não! Uma neblina mental envadiu-me o espírito. O gin iria encarregar-se de tudo. Assim, duas garrafas e depois... o esquecimento total.
O espírito e o corpo são dois mecanismos prodigiosos, porque os meus resistiram a esta agonia mais dois anos. Nas alturas em que o terror e a loucura me assaltavam de manhã, chegava por vezes a roubar à minha mulher o pouco dinheiro que tinha. Outras, cambaleava com tonturas para uma janela aberta ou para o armário dos remédios onde havia veneno, amaldiçoando-me por ser fraco. As fugas da cidade para o campo e do campo para a cidade eram formas de escape que a minha mulher e eu procurávamos. Houve uma noite em que a tortura mental e física foram tão infernais, que eu temi atirar-me da janela. Consegui, no entanto, arrastar o meu colchão para o andar de baixo no caso de decidir saltar de repente. Um médico veio ver-me e deu-me um sedativo forte. No dia seguinte estava a beber gin com o sedativo. Esta mistura ia dando cabo de mim. Receava-se que eu enlouquecesse, e eu também. Comia pouco ou quase nada quando bebia e tinha dezoito quilos a menos do peso normal.
O meu cunhado é médico e graças a ele e à minha mãe dei entrada num hospital de renome nacional para reabilitação mental e física de alcoólicos. Sob o efeito do tratamento de beladona, o meu cérebro desanuviou-se. A hidroterapia e os exercícios ligeiros ajudaram bastante, mas o melhor de tudo foi conhecer um médico bondoso que me explicou que, embora me comportasse como uma pessoa egoísta e caprichosa, eu estava gravemente doente física e mentalmente.
Aliviou-me de certo modo saber que a vontade dos alcoólicos fica espantosamente debilitada quando se trata de combater o álcool, apesar de ser forte noutros aspectos. Estava explicado o meu comportamento incrível apesar da vontade desesperada de parar de beber. Uma vez compreendendo-me a mim próprio, embarquei de novo em altas esperanças. Durante três a quatro meses, as coisas andaram bem. Ia à cidade com regularidade e até ganhei algum dinheiro. A resposta estava seguramente aí: o autoconhecimento.
Mas não estava, porque chegou o dia temível em que voltei a beber. O declínio da minha saúde moral e física caiu a pique como num salto de ski. Ao fim de um certo tempo, voltei para o hospital. Parecia-me que era o fim, que a cortina se fechava. Informaram a minha mulher, já exausta e desesperada, que tudo terminaria por uma deficiência cardíaca durante um acesso de delirium tremens ou que o meu cérebro ficaria irreversivelmente afectado dentro de um ano. Ela teria em breve que entregar-me a um asilo ou a uma agência funerária.
Não era preciso dizerem-me isto. Eu sabia e quase acolhia a ideia com agrado. Foi um golpe devastador para o meu orgulho. Eu que tinha uma ideia tão extraordinária de mim próprio, dos meus talentos e da minha aptidão para vencer obstáculos, estava por fim encurralado. Agora tinha que mergulhar na obscuridade, juntando-me ao cortejo interminável de bêbedos que me tinham precedido. Pensei na minha pobre mulher. Apesar de tudo tínhamos sido muito felizes. O que eu não daria para fazer reparações? Mas agora estava tudo acabado.
Não há palavras para descrever a solidão e o desespero que conheci no lamaçal amargo da autopiedade; areias movediças cercavam-me por todos os lados. Eu tinha encontrado o meu rival e tinha sido esmagado. O álcool dominava-me por completo.
A tremer, saí do hospital um homem despedaçado. O medo manteve-me sem beber durante um tempo. Depois voltou a loucura insidiosa da primeira bebida e, em 1934, no Dia do Armistício, recomecei a beber. Resignaram-se todos perante a certeza de que eu teria de ser internado ou me encaminharia a passos largos para um fim desgraçado. Como é tudo tão escuro antes do amanhecer! Na realidade isto foi o princípio da minha última devassidão. Eu seria em breve catapultado para o que eu gosto de designar como a quarta dimensão da existência. Iria conhecer uma felicidade, uma paz e um sentido de utilidade num modo de vida que se torna cada vez mais maravilhoso à medida que o tempo passa.
Por volta do fim desse Novembro deprimente, estava sentado na cozinha a beber. Com uma certa satisfação pensei que havia bastante gin escondido por toda a casa que chegasse para essa noite e para o dia seguinte. A minha mulher estava a trabalhar. Perguntava a mim mesmo se teria coragem de esconder uma garrafa inteira de gin à cabeceira da cama. Ia precisar dela antes do amanhecer.
O meu devaneio foi interrompido pelo som do telefone. Era a voz alegre de um velho amigo de escola a perguntar se me podia vir ver. Ele estava sóbrio. Tanto quanto eu me lembrava, há anos que ele não vinha a Nova Iorque nesse estado. Fiquei surpreendido, porque se dizia que o tinham internado por demência alcoólica. Perguntei-me a mim próprio como é que ele teria escapado. É claro que ele ficaria para jantar e eu depois poderia beber com ele à vontade. Sem me preocupar com o seu bem-estar, pensei exclusivamente em reviver o espírito dos velhos tempos. Lembrei-me do episódio em que tínhamos fretado um avião para culminar uma bebedeira! A sua vinda era como um oásis no triste deserto de futilidade. Era isso mesmo: um oásis! Os bebedores são assim.
A porta abriu-se e ali estava ele com um ar fresco e radioso. Havia qualquer coisa de indefinível no seu olhar. Estava inexplicavelmente diferente. O que lhe teria acontecido?
À mesa servi-lhe um copo. Ele não o aceitou. Desapontado mas com curiosidade, perguntava-me o que se passaria com ele. Não era o mesmo.
"Então, o que se passa?", perguntei-lhe.
Olhou-me a direito nos olhos. Sem rodeios e a sorrir, disse: "Tenho religião".
Fiquei pasmado. Com que então era isso: o verão passado, doido por causa do álcool e agora, presumia eu, tontinho com a religião. Tinha aquele ar sonhador. Sim, não havia dúvida de que o homem estava alucinado. Deixá-lo-ia pregar à vontade! Além disso, o meu gin iria durar mais do que o seu sermão.
Mas ele não fez sermão nenhum. De um modo muito natural, contou como dois homens se tinham apresentado no tribunal para persuadir o juiz a suspender a sua sentença. Tinham exposto uma ideia religiosa muito simples e um programa prático de acção. Isto tinha-se passado há dois meses e o resultado era evidente. Funcionava!
Ele tinha vindo para me passar a sua experiência - se eu quisesse aproveitá-la. Senti-me assustado mas interessado. É claro que estava interessado. Tinha de estar porque estava desesperado.
Falou durante horas. Memórias da minha infância vieram-me à ideia. Parecia estar sentado na encosta da colina, como naqueles domingos tranquilos, a ouvir a voz do pregador. Recordei a promessa de temperança que nunca cumpri. Lembrei-me do desprezo sem malícia do meu avô para com pessoas da igreja e para com os seus modos de proceder; da insistência com que afirmava que existia uma música celestial, mas negando ao pregador o direito de lhe impor o modo de como a ouvir; da coragem com que falava de tudo isto mesmo antes de morrer. Estas recordações surgiam do passado e faziam-me sentir um nó na garganta.
Voltou-me à ideia aquela visita à velha catedral de Winchester durante a guerra.
Tinha sempre acreditado num Poder superior a mim mesmo. Tinha reflectido muitas vezes sobre estas questões. Eu não era ateu. Poucas pessoas o são na realidade, porque isso implica uma fé cega na estranha teoria de que o universo surgiu do nada e se precipita sem sentido para o nada. Os meus heróis da inteligência, os químicos, os astrónomos, mesmo os evolucionistas sugeriam a presença de vastas leis e forças em acção no universo. Apesar de muitas indicações em contrário, eu tinha poucas dúvidas sobre a existência de um poderoso desígnio e ritmo subjacentes a tudo. Como é que poderia haver leis tão precisas e imutáveis se não houvesse uma Inteligência? Eu tinha simplesmente de acreditar num Espírito do Universo para além do tempo e do espaço. Mas não conseguia ir mais longe.
Era justamente neste ponto que me afastava dos padres e das religiões do mundo. Quando falavam de um Deus pessoal que era amor, uma força sobrenatural e orientação, irritava-me e fechava-se-me o espírito a tal teoria.
Concedia a Cristo o facto de ser um grande homem, que não tinha sido seguido de muito perto por aqueles que O invocavam. O seu ensinamento moral era excelente. Para mim, tinha adoptado aquilo que me parecia mais conveniente e não muito difícil e ignorava o resto.
Causavam-me horror as guerras, os incêndios e as intrigas em nome de conflitos religiosos. Fazendo um balanço, duvidava seriamente de se as religiões da humanidade tinham servido para alguma coisa. A julgar pelo que tinha visto na Europa e desde então, o poder de Deus em questões humanas era insignificante e a Irmandade dos homens uma farsa implacável. Se existia um Diabo, ele parecia dominar o Universo e, a mim, dominava-me de certeza absoluta.
Mas o meu amigo, sentado à minha frente, afirmava categoricamente que Deus tinha feito por ele o que ele não tinha conseguido fazer por si próprio. A sua vontade humana tinha falhado. Os médicos tinham-no declarado irrecuperável. A sociedade estava prestes a encarcerá-lo. Tal como eu, ele tinha admitido a derrota total. Então, ele fora literalmente ressuscitado dos mortos, subitamente retirado dum monte de escombros humanos e elevado a um nível de vida que ele jamais tinha conhecido!
Este poder tinha origem nele? Claro que não. Não tinha existido nele mais poder do que havia em mim naquele momento, e em mim, não havia absolutamente nenhum.
Foi o que me desarmou. Começou a parecer-me que as pessoas religiosas afinal tinham razão. Eu presenciava algo a actuar num coração humano que tinha realizado o impossível. Nesse mesmo momento revi drasticamente as minhas ideias sobre milagres. Tanto pior para as minhas noções do passado; à minha frente, do outro lado da mesa, estava um milagre. Ele proclamava em voz alta boas novas.
Apercebi-me de que a transformação do meu amigo era muito mais do que uma simples reorganização interior. Ela estava alicerçada numa base diferente. As suas raízes mergulhavam num solo novo.
Apesar do exemplo vivo do meu amigo, havia ainda em mim vestígios dos meus velhos preconceitos. A palavra Deus continuava a inspirar-me uma certa antipatia, e este sentimento agravava-se perante a ideia de um Deus pessoal. Esta noção desagradava-me. Podia aceitar conceitos como os de uma Inteligência Criadora, um Espírito Universal ou Espírito da Natureza, mas opunha-me à noção de um Czar dos Céus, por mais carinhoso que fosse o seu reino. Desde então tenho falado com dezenas de pessoas que partilham as mesmas ideias.
O meu amigo sugeriu o que então parecia uma ideia original, "Porque não escolhes a tua própria concepção de Deus?"
Esta afirmação tocou-me muito fundo. Derreteu a montanha de gelo intelectual, à sombra da qual tinha vivido e tremido durante muitos anos. Estava por fim à luz do sol.
Era só uma questão de ter boa vontade para crer num Poder superior a mim mesmo. Não era preciso mais nada para começar. Percebi que o crescimento podia partir deste ponto. Com base numa total boa vontade poderia edificar o que via no meu amigo. Conseguiria? Claro que sim!
Deste modo convenci-me de que Deus se preocupa connosco, seres humanos, desde que O queiramos suficientemente. Ao fim de muito tempo, vi, senti e acreditei. A camada de orgulho e preconceito que me tapava os olhos desapareceu. Surgiu-me um novo mundo.
O verdadeiro significado da minha experiência na Catedral tornou-se-me então claro. Por um breve instante tinha sentido a necessidade e o desejo de Deus. Tinha tido a humilde vontade de O encontrar, e Ele veio. Mas em breve, o sentimento da sua presença dissipou-se com os clamores mundanos, essencialmente com os que me habitavam. E assim tinha sido desde sempre. Que cegueira a minha.
No hospital tiraram-me o álcool pela última vez. O tratamento parecia indicado porque tinha indícios de delirium tremens.
Aí ofereci-me humildemente a Deus, tal como eu então O concebia, para que fizesse de mim o que quisesse. Pus-me sem reservas sob a Sua protecção e orientação. Admiti pela primeira vez que só por mim não era nada; que sem Ele estava perdido. Sem medo encarei os meus pecados e dispus-me a que o meu novo Amigo os removesse pela raiz. Desde então nunca mais voltei a beber.
O meu companheiro de escola foi visitar-me e pu-lo inteiramente a par dos meus problemas e deficiências. Fizemos uma lista das pessoas que eu tinha magoado e em relação às quais tinha ressentimentos. Manifestei a minha completa disposição para abordar essas pessoas, admitindo os meus erros. Nunca as deveria criticar. Tinha de reparar os danos causados da melhor maneira possível.
Tinha de pôr à prova a minha maneira de pensar com a nova tomada de consciência de Deus. Deste modo, o senso comum tornar-se-ia pouco comum. Deveria ficar quieto sempre que em dúvida, pedindo orientação e força para enfrentar os problemas como Ele quisesse. Nunca devia rezar para mim próprio, excepto na medida em que os meus pedidos tivessem utilidade para outros. Só assim podia esperar receber e então seria em abundância.
O meu amigo garantiu-me que, quando fizesse tudo isto, eu entraria numa nova relação com o meu Criador; que eu teria os princípios de um modo de vida que eram a resposta para todos os meus problemas. A crença no poder de Deus, acrescida de suficiente boa vontade, honestidade e humildade para estabelecer e manter a nova ordem das coisas, eram os requisitos básicos.
Era simples mas não fácil; havia um preço a pagar. Significava a destruição do egocentrismo. Tinha de me virar em tudo para o Pai da Luz que nos dirige a todos nós.
Eram propostas revolucionárias e drásticas mas, a partir do momento em que eu as aceitei plenamente, o efeito foi fulminante. Tive um sentimento de vitória, seguido por uma paz e serenidade que nunca tinha conhecido. Senti uma enorme confiança. Senti-me elevado como se o ar puro do cimo de uma montanha me envadisse. Deus manifesta-se à maioria dos homens de um modo gradual, mas o Seu impacto sobre mim foi súbito e profundo.
Por um instante fiquei assustado e chamei o meu amigo, o médico, para lhe perguntar se estava demente. Ele ouviu-me espantado à medida que eu ia falando.
Por fim disse-me abanando a cabeça: "Aconteceu-lhe qualquer coisa que eu não compreendo, mas é melhor agarrar-se a isso. É tudo preferível ao que foi até aqui". Este bom médico vê agora muitos homens que tiveram experiências semelhantes. Ele sabe que são experiências reais.
Enquanto estava no hospital, veio-me à ideia que havia milhares de alcoólicos desesperados que ficariam felizes de ter o que me tinha sido dado tão gratuitamente. Talvez eu pudesse ajudar uns tantos. Eles, por sua vez, poderiam trabalhar com outros.
O meu amigo tinha insistido na absoluta necessidade de demonstrar estes princípios em todos os actos da minha vida. Impunha-se em particular trabalhar com outros, como ele tinha trabalhado comigo. A fé sem obras é uma fé morta, disse-me ele. E como isto é terrivelmente verdade no caso dos alcoólicos! Porque se um alcoólico deixa de aperfeiçoar e ampliar a sua vida espiritual através do trabalho e sacrifício pelos outros, não conseguirá sobreviver a certas provas e momentos difíceis que o esperam. Se não trabalhar nisso, voltará seguramente a beber e, se beber, morrerá certamente. A fé então estaria morta. Connosco é precisamente assim.
A minha mulher e eu entregámo-nos com entusiasmo à ideia de ajudar outros alcoólicos a encontrarem uma solução para os seus problemas. Foi uma sorte, porque os meus antigos sócios continuaram cépticos por um ano e meio, durante o qual arranjei pouco trabalho. Não estava ainda muito bem nessa altura. Sentia-me atormentado por vagas de autopiedade e ressentimentos, que por vezes me levaram quase a beber de novo, mas em breve descobri que nas alturas em que praticamente tudo falhava, o trabalho com outros alcoólicos salvava o dia. Fui muitas vezes desesperado ao meu velho hospital. Ao falar aí com alguém, sentia-me surpreendentemente reconfortado e de pé outra vez. É um modo de vida que funciona em momentos difíceis.
Começámos a fazer muitos amigos e criou-se uma comunidade entre nós de que é maravilhoso fazer parte. Sentimos verdadeiramente a alegria de viver, mesmo sob pressão e em dificuldades. Tenho visto centenas de famílias a seguirem um caminho com sentido; tenho visto comporem-se as situações familiares mais complicadas; vi dissiparem-se hostilidades e rancores de todos os géneros. Vi pessoas saírem de asilos e retomarem o seu lugar vital na família e na comunidade. Homens de negócios e de outras profissões recuperaram as suas posições. Praticamente não há quase nenhuma forma de dificuldade e de desgraça que não se tenha superado entre nós. Numa cidade do Oeste e arredores contamos mil pessoas entre os nossos membros e seus familiares. Reunimo-nos com frequência para que recém-chegados possam encontrar a fraternidade que procuram. Nestas reuniões informais podem frequentemente ver-se 50 a 200 pessoas. Estamos a crescer em número e influência.*
Um alcoólico com os copos é um ser desagradável. As nossas lutas com eles variam do extenuante, passando pelo cómico até ao trágico. Um pobre diabo suicidou-se em minha casa. Ele não conseguiu ou não quis ver o nosso modo de vida.
Porém, há uma grande dose de divertimento em tudo isto. Julgo até que algumas pessoas se poderiam escandalizar com o nosso aparente mundanismo e frivolidade. Mas por detrás disso há uma profunda seriedade. A fé tem de funcionar em nós e através de nós vinte e quatro horas por dia ou morremos.
A maioria de nós sente que já não precisa de procurar a Utopia. Temo-la entre nós, justamente aqui e agora. Em cada dia que passa, a simples conversa que o meu amigo teve comigo na cozinha multiplica-se num círculo crescente de paz na Terra e de boa vontade para com os homens.

Bill W., co-fundador de A.A.,
morreu em 24 Janeiro 1971


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